Por que não utilizar fones de ouvido durante a corrida. / by Joaquim Ferrari

Estudo alerta para risco de perda de audição para quem usa MP3 players

RIO - No ano de 2006, o guitarrista da banda "The Who", Pete Townshend, surpreendeu os fãs ao expressar preocupação com os possíveis danos à audição daqueles que usam tocadores de música digital de forma indiscriminada. O músico abriu seu coração ao afirmar que ele mesmo teve a audição prejudicada por anos a fio de uso de fones de ouvido em estúdios. Na época, Townshend já estava enfrentando problemas profissionais por conta da perda de audição - sempre que participava de uma sessão de gravação em estúdio, ele precisava de 36 horas para que seus ouvidos se recuperassem.

Dois anos depois da confissão do guitarrista, um estudo divulgado pelo Comitê Científico para riscos de saúde emergentes e recentemente identificados da Comissão Européia alerta para os riscos iminentes de surdez para os usuários de MP3 players.

De acordo com o estudo, entre 5% e 10% dos usuários que, por um período de pelo menos cinco anos, escutam música com aparelhos portáteis durante mais de uma hora por dia, em alto volume, podem ter perda permanente da capacidade auditiva. Afinal, qual é o risco real do uso prolongado dos players, celulares com a função embutida e fones de ouvido?

A "Digital" conversou com o doutor Manoel de Nóbrega, da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), responsável pelo laboratório de crianças portadoras de deficiências auditivas. Trata-se de uma dos maiores especialistas em perda de audição do país. E ele é categórico ao afirmar: os jovens de hoje estão semeando a surdez que enfrentarão no futuro. Mais: a continuar o uso abusivo de MP3 players e fones de ouvido, eles no futuro acabarão ouvindo menos que seus pais.

- Desde 2006, a comunidade científica vem levantando a questão. Nessa época, saiu um importante estudo da Universidade de Boston (intitulado "First Guidelines For Safe Levels Of IPod Music Listening, University of Colorado at Boulder and Children's Hospital in Boston"), que já indicava a gravidade do problema. É sabido e definitivo que há perda auditiva induzida pelo ruído. O que acontece é que há também uma perda induzida pela música. Há uma relação entre a intensidade do uso e a perda de audição - explica.

Se o usuário de iPod é exposto a 90 decibéis de ruído, ele pode ficar exposto a 8h por dia sem grandes riscos. Mas cada vez que se aumenta 5 decibéis, cai pela metade o tempo em que ele pode ficar exposto ao barulho. Com 95 decibéis, ele só pode ficar exposto a 4h; com 100 decibéis, o tempo é de 2h; com 110, é de 30 minutos; com 115 decibéis, é de 15 minutos. A partir de 100 decibéis a coisa começa a ficar perigosa, mesmo que a música seja de qualidade.

Ainda segundo o especialista, há dois tipos de perda auditiva quando se fala na relação com a música em alto volume. A primeira é a perda transitória. Uma pessoa que passa um tempo numa boate, por exemplo, sai um tanto surda de lá mas depois volta a ouvir normalmente.

- Por isso precisamos pedir repouso auditivo para a realização de exames - diz o médico.

Outro tipo de perda é a contínua, que causa desenvolvimento de perda auditiva na qual não há retorno. Aqui se encaixam os usuários constantes de tocadores de música encaixados no ouvido.

Além do volume da música que se escuta nos players, há outro tipo de perigo rondando a vida dos amantes da música digital. Os fones de ouvido podem ser prejudiciais à saúde da audição. Os do tipo intra-canal (aqueles que "enfiamos" dentro do ouvido) são os piores, uma vez que amplificam os sons em até cinco vezes.

- Há inclusive fones de ouvido com controle de volume, com possibilidade de aumentar o ganho do aparelho (ou seja, fazer com que a música fique mais alta). O melhor fone é aquele que tem maior isolamento acústico. É um absurdo quando você vê aquelas pessoas ouvindo músicas no iPod e as pessoas ao redor escutam junto com elas. Ou seja, o volume está alto demais!

Outro alerta: todo cuidado é pouco para quem acha que está agindo certo ao usar fones em apenas um ouvido. Segundo o doutor Manoel, a prática é outro absurdo.

- Dessa forma, essa pessoa vai desenvolver perda auditiva assimétrica e pode levar anos para instalar a surdez. Agora ela não vai sentir nada. Mas os adolescentes ficarão surdos antes dos pais. Olha que situação mais trágica! Além disso, quem usa esses fones tem alterações na concentração e na atenção. Dirigir com fones é problema sério, porque dessa forma você prioriza a visão frontal. Outros perigos do uso prolongado do fone são o desenvolvimento de dermatites e eczemas nas orelhas.


Afinal, qual é o melhor fone? Segundo o especialista, o que tem formato de concha.


- Hoje, mais do que informação sobre o assunto é preciso divulgação dos males causados pelos fones e pela exposição a níveis muito alto de ruídos.